Aluno de doutorado pelo programa MD-PhD do CISM, jovem pesquisador de 24 anos sonha em dedicar carreira a entender como ajudar os jovens a lidar com seus sofrimentos
Nascido em Belo Horizonte e criado em Joaquim Felício, cidade de 3,8 mil habitantes no interior de Minas Gerais, Gabriel Ângelo Ferreira Faria de Souza é o primeiro médico da família. Filho da costureira Welma das Graças Faria Souza e do eletricitário Aguinaldo Antônio de Souza, cresceu na roça e, com a natureza, aprendeu a ser “engenhoso”, habilidade que hoje usa em um contexto bem diferente: na pesquisa científica.
Aos 24 anos, Gabriel Ângelo é um dos talentos em formação pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM). Com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), cursa o doutorado pelo programa MD-PhD* na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Conheça agora a história do jovem pesquisador que sonha em dedicar a carreira de cientista para entender como ajudar os jovens a lidar com seus sofrimentos.
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*O programa MD-PhD combina o curso de Medicina (MD) com o doutorado (PhD).
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Gabriel com seu avô materno Belo (à esquerda) e o avô paterno Maurício (à direita) (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Gabriel, pode contar um pouco sobre quem é você?
Gabriel Ângelo: Meu nome é Gabriel Ângelo, tenho 24 anos e atualmente sou aluno de doutorado pelo programa MD-PhD, trabalhando com o CISM e com dados da BHRC*.
Nasci em Belo Horizonte, mas sou de Joaquim Felício, uma cidadezinha simpática de 3.000 habitantes no interior de Minas Gerais.
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*A BHRC (Brazilian High Risk Cohort for Mental Health Conditions – Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais) é um dos maiores estudos do mundo sobre o desenvolvimento do cérebro. O projeto é ligado ao CISM, onde recebe o nome de “Conexões Mentes do Futuro”.
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– CISM: Como foi a sua trajetória escolar antes de ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)?
Gabriel Ângelo: Fiz o Ensino Fundamental em um colégio católico chamado Santa Maria Floresta, já o Ensino Médio eu fiz no Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais (COLTEC/UFMG), um colégio técnico público da UFMG no qual eu saí também formado como Técnico em Química. Meu estágio obrigatório foi no Laboratório de Radioisótopos da Faculdade de Farmácia da UFMG. Então, minha formação foi focada em química e farmacologia.
– CISM: O que te motivou a escolher o curso de Medicina? Como foi o processo de dedicação até a entrada na FMUSP?
GA: Acho que, desde pequeno, na roça, eu tive muito contato com os bichos, a natureza e as pessoas, que resolviam seus problemas com uma sabedoria quase instintiva que sempre me fascinou. Ser considerado “engenhoso” lá tem muito valor. Então, sempre me incentivaram a estudar. Quando passei no Colégio Técnico da UFMG foi uma festa! Não passei de primeira. No outro ano, começou a pandemia da Covid-19 e, nesse período de isolamento, me senti compelido a estudar o dobro. Queria passar na UFMG. Acabei passando na USP e vim para São Paulo, não conhecia nada. Por sorte, um grande amigo passou na FEA [Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP] e viemos juntos morar em “Sampa”, desbravar a selva de pedra. Bons tempos!

O jovem em sua formatura do Ensino Médio (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Pode falar um pouco sobre o seu contexto familiar? Seus pais também atuam na área? De que forma eles te inspiraram a seguir nos estudos?
GA: Não! Sou o primeiro médico da família. Minha mãe é uma exímia costureira e meu pai trabalha como eletricitário na Companhia de Energia Elétrica de Minas Gerais (CEMIG). Meus pais me inspiram todos os dias a seguir firme nos estudos e pesquisa, sem eles não conseguiria nada. Não se consegue nada sozinho. Minha família é do norte de Minas, somos geraizeiros, e de onde a gente vem sempre se cita a máxima Roseana: “Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia”.

Gabriel Ângelo, ainda criança, ao lado de seus pais e irmã (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Em que momento o interesse pela pesquisa científica em saúde mental surgiu em seu caminho? Ao optar por Medicina, já pensava em dedicar carreira à ciência?
GA: Eu diria que o meu interesse em fazer pesquisa em saúde mental veio desde muito cedo, que é uma união de duas coisas que eu gosto muito: uma que é toda essa área de saúde mental, psiquiatria, entrei na faculdade já querendo fazer psiquiatria, e a outra área é a questão de pesquisa, que eu sempre tive muita vontade de fazer pesquisa. Meu Ensino Médio eu fiz num colégio técnico, então sempre tive contato desde cedo com este ambiente. A pesquisa em saúde mental une grandes interesses meus, por um lado a pesquisa e por outro toda essa área da psiquiatria. Então, o CISM me proporciona juntar duas coisas que eu gosto bastante e eu pretendo fazer isso por bastante tempo ainda (risos)!
– CISM: Quem foram/são suas maiores inspirações para o ingresso no mundo da ciência em saúde mental? Como e por que essas pessoas te inspiram?
GA: Minhas maiores referências nessa área, naturalmente, não tem como não citar o Professor Euripedes** que foi meu orientador de Iniciação Científica e agora é meu orientador de doutorado, e também os doutores Marcos Croci e Marcelo Branãs, que são os coordenadores do ADRE***, que trabalham com saúde mental em populações jovens, principalmente com transtornos de personalidade, que foram meus coorientadores. Então, eu diria que essas pessoas, com certeza, são minhas maiores inspirações, que abriram muitas portas para mim e me ensinaram a fazer pesquisa. Quando eu entrei, eu não sabia nada e agora eu sei um pouquinho menos que nada, graças a essas pessoas.
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**Euripedes Constantino Miguel é coordenador do CISM, professor titular da FMUSP e chefe do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.
***ADRE (Ambulatório para o Desenvolvimento dos Relacionamentos e das Emoções), do Insituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), da FMUSP.
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Professor Euripedes acompanha a participação do jovem talento no Brain Congress, em 2025 (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Por que você quer ser cientista e seguir carreira na pesquisa em saúde mental? Quais são os seus objetivos ao optar por esta trajetória? O que te fascina e motiva?
GA: Eu quero trabalhar com pesquisa, eu quero fazer isso ser uma carreira, eu quero fazer mexer com saúde mental porque eu acredito que é uma área muito interessante, é uma área também muito importante, e que falta muito entendimento ainda no Brasil. A gente sabe que a gente precisa disso para conseguir avançar a saúde mental no Brasil. Chega a ser uma necessidade a gente estudar mais a saúde mental para conseguir proporcionar melhor cuidado para as pessoas e, naturalmente, fazer avançar este campo no nosso país.
– CISM: Pode comentar um pouco sobre o que vem estudando? Esta é a linha de pesquisa para a qual deseja se dedicar no futuro ou ainda não tem certeza?
GA: Desde a primeira vez que pisei na FMUSP, já queria fazer IC. O professor Euripedes me acolheu em seu centro de pesquisa e comecei coletando dados para ajudar com pesquisas que já estavam em andamento. Iniciei meu projeto próprio sobre a epidemiologia da autolesão não suicida (ALNS) em jovens brasileiros com a orientação dos Drs. Marcos Croci e Marcelo Brañas. Agora, meu projeto de doutorado é uma evolução direta do meu projeto inicial. Pretendo seguir com a psiquiatria desenvolvimental e me dedicar a entender como ajudar os jovens a lidar com seus sofrimentos. Como fazer isso ainda não tenho certeza, mas a pesquisa com certeza vai iluminar o caminho.
– CISM: Você já participou de congressos e recebeu prêmios. Pode comentar sobre as conquistas que já alcançou desde a entrada na Iniciação Científica e qual é a importância desses reconhecimentos para a sua motivação?
GA: Os primeiros dois anos de pesquisa foram dedicados a desenvolver a metodologia científica do projeto e a aprender análise de dados. No 3º ano, os resultados ganharam prêmios o que me deixou muito feliz! Essa é a importância desses congressos e eventos. Lá, a gente tem a oportunidade de mostrar para a comunidade científica o fruto de nossas pesquisas, receber críticas e comentários que vão deixar nossas análises melhores. Sem a colaboração, a comunidade científica não se sustenta de pé. E é difícil colocar seu trabalho à prova de receber críticas, mas não pode levar para o lado pessoal, precisa entender que é parte do processo. Às vezes ganhamos prêmios e certificados bonitos, mas o maior ganho desses congressos com certeza é a melhoria dos projetos e a oportunidade de conviver com pesquisadores mais experientes, que às vezes em um comentário solucionam dúvidas de meses!
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O jovem já participou de congressos e recebeu prêmios por sua pesquisa (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Como você se vê daqui a alguns anos? Onde almeja chegar?
GA: Daqui a uns anos, eu me vejo já com a minha tese defendida, já com novos projetos e envolvido cada vez mais em pesquisa. Eu espero daqui a alguns anos ter me consolidado naturalmente com os meus aprendizados e poder contribuir de forma mais efetiva, fazendo projetos cada vez mais complexos e que possam contribuir de forma melhor, e que sejam com temas cada vez mais interessantes, integrando novas tecnologias, neurociência, essas coisas todas. É assim que eu me vejo no futuro (risos)!
– CISM: O que você diria a um jovem estudante que deseja trilhar o mesmo caminho que você percorreu até aqui? Que conselhos e dicas você daria?
GA: Eu diria que sou muito novo, não sei se tenho como dar algum conselho (risos), mas eu diria para você ser uma pessoa original, que você faça alguma coisa que gosta e que fale assim ‘Estou feliz fazendo’, porque se você ficar pensando só no objetivo, acho que as coisas não vão muito para a frente. Se eu pudesse resumir, eu diria: tenha uma ideia, defenda-a, discuta com as pessoas mais experientes e vá construindo essas coisas, que uma hora a ciência vai fazendo a magia da ciência e aí o projeto vai e começa a se desenvolver. Não tem um caminho certo, mas se você for fazendo, uma hora as coisas vão acontecendo.
– CISM: O que gostaria de perguntar ou quais dicas e conselhos gostaria de ouvir de pesquisadores experientes que um dia sonharam com a mesma carreira que você?
GA: Eu queria perguntar como você faz para desenvolver projetos que são maiores, para conseguir conectar essas pessoas. Eu tenho uma grande dúvida de como as coisas funcionam depois, porque eu, realmente, não tenho muita noção de como as coisas são depois. A minha maior dúvida é: “E depois que você deixou de ser aluno, o que muda, o que acontece, como é esse processo?”. Acho que essa é a minha dúvida para as pessoas mais experientes.

Gabriel tem 24 anos, cursa doutorado e deseja dedicar a carreira à pesquisa científica em saúde mental (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Como você encara o fato de ainda haver muitos desafios para fazer ciência no Brasil? Qual é a importância de se valorizar e investir na ciência brasileira?
GA: Eu acredito que os desafios são muito grandes. Não tem como transformar um país sem investir em pesquisa. A gente vê os países mais desenvolvidos do planeta, todos eles investiram muito em pesquisa por muitos anos. Acho que a saúde mental é uma área fundamental para você ter uma boa vida e para a população ter uma vida boa, porque não adianta você só ter tecnologia e não ter uma vida boa. Então, acho que a saúde mental é aquela área que, na Medicina, a gente consegue equilibrar as coisas e avançar tanto com novos conhecimentos quanto agregar às vivências das pessoas. Investir em saúde mental é plantar uma semente que lá na frente vai gerar muitos frutos para as pessoas, e precisa de investimento.
– CISM: Para além da vida acadêmica, conte um pouco sobre os seus hobbies e vida pessoal. Tem algum talento diferente ou pratica alguma atividade?
GA: Acho que fora das pesquisas a minha vida também é tomada pela Medicina. Tento participar de tudo que posso. A nossa faculdade oferece tudo que um aluno precisa, desde esportes, movimento estudantil e o teatro, que é minha paixão. Já participei de expedições e trabalhos voluntários também, tudo proporcionado pela faculdade. O que quero dizer com isso é que há muita vida fora do hospital e dos institutos. E as amizades, sem elas nada faria sentido. Por isso dizemos por aí que precisamos “Salvar a Escola!”.
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16 de junho 2026
Institucional CISM


