Aluno de Iniciação Científica do CISM, jovem pesquisador de 24 anos sonha em atuar na ciência a fim de ser o melhor médico para seus pacientes
“Acho que o principal motivo para eu querer ser cientista e dedicar minha carreira à saúde mental é o objetivo de ser o melhor médico. Sem ciência não é possível praticar a melhor medicina”, é com esta declaração que Guilherme Roncete, bolsista de Iniciação Científica (IC) e um dos talentos em formação pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), fala sobre as suas motivações em seguir carreira como pesquisador.
Aos 24 anos, Guilherme cursa o 6º ano de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e iniciou suas primeiras pesquisas na área de saúde mental com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Conheça agora a história do jovem pesquisador que sonha em produzir pesquisas de alto impacto, que tragam respostas com relação a tratamentos promissores para as condições de saúde mental, especialmente a pacientes graves na área da psiquiatria.
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Guilherme (ao centro) com seus pais e irmãos; ele será o primeiro médico da família (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Guilherme, pode contar um pouco sobre quem é você?
Guilherme Roncete: Olá, meu nome é Guilherme, tenho 24 anos, estou no 6ª ano do curso de Medicina na Faculdade de Medicina da USP e sou bolsista de Iniciação Científica do CISM. Nasci em Guarapari, no Espírito Santo.
– CISM: Como foi a sua trajetória escolar antes de ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)?
Guilherme Roncete: Fiz o Ensino Fundamental em escolas particulares, à destacar o Instituto Educacional Jesus Menino (IEJM, Guarapari/ES) e o Centro de Ensino Charles Darwin (Vila Velha/ES). O Ensino Médio foi em escola pública, o Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), onde cursei também o técnico em eletrotécnica integrado ao Ensino Médio.
– CISM: O que te motivou a escolher o curso de Medicina? Como foi o processo de dedicação até a entrada na FMUSP?
GR: No início, não tinha certeza sobre qual curso iria seguir no ensino superior. Estava determinado a estudar e alcançar um bom resultado nos vestibulares no ano que antecedeu a minha formação no Ensino Médio. Após um bom resultado, decidi que no último ano eu teria condições de entrar na USP, um grande sonho considerando a reputação nacional e internacional. Meu grande objetivo sempre foi estar entre os melhores.
A escolha do curso veio pelo diferencial da Medicina em poder causar impacto direto na sociedade. À época, não enxergava um potencial muito grande nas outras profissões no Brasil, acreditando que, ao menos, na Medicina, esse impacto dependeria muito mais de mim e não tanto da disponibilidade de grandes investimentos.
Estudei então durante a pandemia pelas aulas online do meu Ensino Médio (onde estava no 4º ano, por conta do ano adicional do ensino técnico) e do cursinho particular que recebi bolsa. Estudar naquele contexto não foi fácil: a incerteza sobre os próximos anos, que era global por conta do novo vírus, a ausência do apoio presencial de grandes amigos, e a adaptação com o ensino digital/remoto, inédito para boa parte dos estudantes, eram obstáculos relevantes. Todavia, estava determinado a alcançar esse objetivo não só por mim, mas pela expectativa que criara em meus familiares ao afirmar que queria cursar Medicina. Eu seria o primeiro médico entre avós, pais, irmãos, tios e primos.
No fim, alcancei esse sonho que foi criado e alimentado por todo um ano, e pude comemorar minha aprovação – à época, apenas com os familiares de casa, haja vista o distanciamento social ainda persistente.
– CISM: Pode falar um pouco sobre o seu contexto familiar? Seus pais também atuam na área? De que forma eles te inspiraram a seguir nos estudos?
GR: Meus pais são grandes inspirações, que nasceram em uma cidade rural no interior do estado, trabalharam desde criança em negócios da família, e à época terminaram o Ensino Médio com dificuldades ou com o curso supletivo posteriormente. Creio que nunca sequer cogitaram o ensino superior, isso era uma realidade muito distante para o contexto familiar, em que era necessário trabalhar para suprir as demandas familiares mais urgentes. Todavia, considero meu pai uma pessoa genial. Aprende tudo com muita facilidade, e nunca se menospreza. Além disso, sempre foi determinado à conseguir o melhor para a família. De maneira semelhante, minha mãe é alguém que sempre colocou os filhos em primeiro lugar. Apesar das dificuldades que teve que lidar diariamente, nunca deixou de nos ensinar, conversar, e de ser alguém que compreende muito bem o outro.
– CISM: Em que momento o interesse pela pesquisa científica em saúde mental surgiu em seu caminho? Ao optar por Medicina, já pensava em dedicar carreira à ciência?
GR: Bom, meu interesse em pesquisa, em fazer Iniciação Científica, começou desde antes da faculdade. Eu achava que o ambiente de alto nível acadêmico seria muito importante para as coisas que eu considero agradáveis de se fazer, de se dedicar. Eu acho que eu gosto muito de estar em meio a pessoas que se destacam, trazer inovações. Então, desde o começo da faculdade, eu fui atrás de pesquisa por conta disso. Não tinha ainda um interesse específico em pesquisa em saúde mental, apesar de agora eu perceber… sim, hoje em dia eu vejo que já tinha uma certa inclinação. Mas foi uma grande oportunidade quando, no segundo ano, eu encontrei um projeto de pesquisa do Professor Euripedes*, na época relacionado à Coorte de Alto Risco da Covid. E foi, assim, uma das melhores coisas que eu fiz na faculdade, nos primeiros anos, porque foi realmente uma experiência que eu pude me dedicar e ver acontecer, de fato, uma melhora da nossa compreensão sobre aquilo que estava acontecendo da Covid longa.
Então, desde aquela época, eu encontrei um ótimo grupo de pesquisa e decidi continuar trabalhando porque eu vi que estava com um orientador e um coorientador, o professor Rodolfo [Furlan Damiano], muito dedicados, que tinham muito a acrescentar para a minha carreira.
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*Euripedes Constantino Miguel é coordenador do CISM, professor titular da FMUSP e chefe do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.
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– CISM: Quem foram/são suas maiores inspirações para o ingresso no mundo da ciência em saúde mental? Como e por que essas pessoas te inspiram?
GR: Com relação a inspirações, isso é muito fácil. Aqui na Universidade de São Paulo, a gente fica num ambiente que tem grandes pesquisadores que apresentam seus projetos de pesquisa nas aulas que nós temos logo no 1º ano, seja aqui na Faculdade de Medicina, seja no ICB, no Instituto de Química. Então, nos primeiros anos, já tive contato com pesquisadores como Carlos Carvalho, Esther Sabino, mas quem, realmente, foi a inspiração, foi quem eu pude ficar mais perto: foi o meu coorientador, o professor Rodolfo, porque é um exemplo de pessoa muito dedicada, que cresceu na carreira de uma maneira incrível e, ao mesmo tempo, se mostra alguém acessível, preocupado com todos os integrantes do grupo de pesquisa. Eu acho que ele e o Professor Euripedes são grandes exemplos de pessoas que, de fato, se dedicam à pesquisa, abdicando, às vezes, de outras coisas para poder tocar os projetos.

O pesquisador do CISM, Rodolfo Furlan Damiano (ao centro) é coorientador de Guilherme na FMUSP (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Por que você quer ser cientista e seguir carreira na pesquisa em saúde mental? Quais são os seus objetivos ao optar por esta trajetória? O que te fascina e motiva?
GR: Acho que o principal motivo para eu querer ser cientista e dedicar minha carreira à saúde mental é o objetivo de ser o melhor médico mesmo. Eu acho que sem a ciência não é possível praticar a melhor medicina. Claro que é possível ser um bom médico, mas na minha visão, para poder entregar o melhor para o seu paciente, é necessário estar na fronteira do conhecimento, é necessário estar em busca das evidências, estar lendo, interpretando, julgando aquilo que é melhor para os seus pacientes, para aqueles que você ainda não conseguiu encontrar o tratamento mais adequado e para aquilo que a gente ainda não entende.
Eu sei que isso ainda vai ficar muito mais claro na minha vida quando iniciar, de fato, a prática clínica em psiquiatria, mas, no momento, o que mais me move a fazer pesquisa em saúde mental é isso, é poder entregar no futuro o melhor para os meus pacientes.
– CISM: Pode comentar um pouco sobre o que vem estudando? Esta é a linha de pesquisa para a qual deseja se dedicar no futuro ou ainda não tem certeza?
GR: Hoje, minha principal linha de estudo é na área de suicidalidade. Particularmente, tenho interesse em compreender as trajetórias e fatores de riscos para o desenvolvimento da ideação e do comportamento suicida, especificamente dos mecanismos da transição entre o desenvolvimento da ideação e da tentativa de suicídio. Acredito que existe ainda uma lacuna grande nessa área, que precisa ser preenchida para embasar intervenções eficazes para a prevenção do suicídio. Atualmente, faço isso usando os dados sociais, ambientais e genéticos obtidos ao longo do desenvolvimento da população de 2.511 crianças, adolescentes e jovens adultos da BHRC*, a coorte com mais de 15 anos de acompanhamento que o CISM coordena em São Paulo e Porto Alegre. Paralelamente, também estudo a eficácia das intervenções aplicadas em outros estudos. Por acreditar que ainda exista muito a ser compreendido nesse assunto, minha visão é que devo me dedicar a isso por mais um bom tempo.
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*A BHRC (Brazilian High Risk Cohort for Mental Health Conditions – Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais) é um dos maiores estudos do mundo sobre o desenvolvimento do cérebro. O projeto é ligado ao CISM, onde recebe o nome de “Conexões Mentes do Futuro”.
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– CISM: Pode comentar sobre as conquistas que já alcançou desde a entrada na Iniciação Científica e qual é a importância desses alcances para a sua motivação?
GR: Desde o início da minha IC, minhas grandes conquistas foram a publicação de sete artigos em revistas indexadas no PubMed, a apresentação de dois resumos no European Congress of Psychiatry, e a aprovação para participar de um inigualável programa de mentoria oferecido pela Academia Americana de Psiquiatria, que se iniciou neste mês de abril de 2026 e se estenderá por mais de um ano, envolvendo participação no APA (American Psychiatric Association) Annual Meeting, no ACNP e na SOBP, grandes congressos internacionais em que terei discussões programadas com os maiores expoentes na psiquiatria mundial.
Essas conquistas são, para mim, importantes porque destacam o mérito das produções científicas que conseguimos trazer nesses anos para o meio. Fazer ciência, para mim, deve ter o objetivo de gerar impacto real, com racional e metodologia apropriados. E ter a validação do filtro que é publicar em grandes revistas e a aprovação para participar de grandes programas como esse da APA sempre será essencial para que eu entenda que estou no caminho certo.
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Jovem pesquisador apresenta trabalhos no European Congress of Psychiatry (EPA), na Espanha (Foto: Arquivo pessoal)
– CISM: Como você se vê daqui a alguns anos? Onde almeja chegar?
GR: Daqui a alguns anos, me vejo cursando o doutorado e, quem sabe, ocupando uma posição acadêmica na minha instituição. Mas o que realmente me move são os objetivos por trás disso: produzir pesquisa de alto impacto, liderar estudos que tragam respostas concretas sobre a fisiopatologia das doenças mentais e sobre tratamentos promissores — contribuições que possam, de fato, orientar o trabalho de médicos, psicólogos, psiquiatras e dos demais profissionais envolvidos no cuidado de pacientes graves em psiquiatria.
– CISM: O que você diria a um jovem estudante que deseja trilhar o mesmo caminho que você percorreu até aqui? Que conselhos e dicas você daria?
GR: Se você é um jovem estudante e sonha ser pesquisador, cientista, eu acho muito importante que você procure primeiro um bom grupo de pesquisa para você ter uma boa orientação. É muito difícil começar totalmente do zero, sem ninguém para te guiar, porque são muitas informações e você pode acabar se perdendo nelas. O mais importante no começo, para mim, é demonstrar comprometimento, é demonstrar interesse. Então, escolha uma área que você sabe que vai ser um tema que vai te mover, que vai ser um tema que você quer desenvolver, que quer dedicar muitas horas da sua semana, do seu mês, para isso, e a partir disso você pode encontrar pesquisadores na área, mandar e-mails para o último autor de pesquisas realizadas nessa área, expondo nesse email o seu interesse, as motivações que você tem em estudar esse tema, se mostre alguém comprometido, responsável, que eu acho que isso é o mais importante.
Existem diversas ferramentas que ajudam os grupos de pesquisa, mas sempre vai ser necessário formar bons pesquisadores, porque a gente sempre precisa de mais alguma pessoa para ajudar a conduzir uma etapa da pesquisa e a gente quer que essa pessoa cumpra o seu papel e para isso tem que ser alguém comprometido, responsável, que a gente possa confiar nas tarefas.
– CISM: O que gostaria de perguntar ou quais dicas e conselhos gostaria de ouvir de pesquisadores experientes que um dia sonharam com a mesma carreira que você?
GR: O que eu gostaria de receber de conselho de algum pesquisador mais experiente que eu é algo relacionado à realidade acadêmica aqui no Brasil. Para ser pesquisador nas grandes instituições, muitas vezes, é necessário dividir a dedicação entre a parte de pesquisa, a parte de docência e a prática clínica. Então, eu gostaria de saber como racionalizar essa dedicação, o tempo para cada uma das áreas. E uma aflição que eu tenho, acho que uma grande aflição, é de produzir coisas que não sejam úteis. Eu acho que um grande desejo que eu tenho é de fazer pesquisas que tragam impacto na sociedade, que, não às vezes diretamente, mas pelo menos que conduzam, que guiem novos projetos de pesquisa verdadeiramente úteis para a população, para os doentes, e que não somente virem um número, um paper, etc.
– CISM: Como você encara o fato de ainda haver muitos desafios para fazer ciência no Brasil? Qual é a importância de se valorizar e investir na ciência brasileira?
GR: Eu encaro, de certa forma, a desvalorização da pesquisa científica como algo bem ruim em termos da ignorância da governança, de quem maneja os recursos públicos, com relação ao potencial que uma pesquisa científica de qualidade tem para a população. Eu acho que tratamentos ineficazes, o desconhecimento, a ignorância, têm um custo muito maior do que o investimento em pesquisa. O Brasil tem grandes mentes, eu acho que essas pessoas têm que ser valorizadas para a gente não perdê-las. Eu acho que o Brasil tem uma grande quantidade de pessoas, além de inteligentes e inovadoras, esforçadas, que estão interessadas em conduzir projetos de pesquisas grandes, projetos de pesquisas que podem mudar a realidade em saúde mental. E essas pessoas precisam ser valorizadas, precisam ter investimentos em seus projetos, para a gente ter condições de trazer inovações, de testar inovações. Isso tem um impacto muito maior do que os gastos que seriam trazidos.
– CISM: Para além da vida acadêmica, conte um pouco sobre os seus hobbies e vida pessoal. Tem algum talento diferente ou pratica alguma atividade?
GR: Sempre gostei da vida universitária, dos amigos que podemos fazer no contexto de uma faculdade tão grande, das práticas que conseguimos ter nas mais diversas extensões e das experiências que podemos ter ao estar dispostos a nos dedicar por completo àquilo que decidimos que são as áreas que gostamos na faculdade. Nesse contexto, o que mais me agradou fora da vida acadêmica em si foi o handebol. Participei de muitas coisas, para aproveitar ao máximo tudo que a faculdade pode oferecer e poder também retribuir para a sociedade em algumas das extensões, mas o que mais representou para mim foi o prazer de estar em uma equipe comprometida com grandes objetivos, com responsabilidade mútua alinhada em todos darem o máximo para o bem da equipe, com tudo isso associado ao apoio e a amizade que criamos. Sempre me dediquei ao máximo aos meus sonhos, e acho que o espírito dos times da AAAOC (atlética da FMUSP) é esse, e por isso me encantou.
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Guilherme foi aprovado para um inigualável programa de mentoria que inclui participação em três congressos internacionais (Foto: Arquivo pessoal)
25 de junho 2026
Institucional CISM


