O estudo científico acompanhou 2.200 crianças e adolescentes por um período de 8 anos; os resultados foram revelados recentemente e publicados em revista internacional
Um estudo acompanhou mais de 2.200 crianças e adolescentes ao longo de oito anos e identificou diferentes padrões de trajetória de transtornos internalizantes, como depressão e ansiedade. Do fim da infância até o início da idade adulta, os pesquisadores observaram que alguns transtornos surgem, outros persistem e uma parte entra em remissão, ou seja, não apresenta mais sintomas suficientes para preencher os critérios diagnósticos da determinada condição de saúde mental.
Os resultados da investigação científica foram publicados, no começo deste ano, no periódico internacional “Journal of Affective Disorders”, da editora Elsevier.
No início do estudo, entre participantes de 6 a 14 anos, aproximadamente 14% já apresentavam um transtorno internalizante. Durante três avaliações – a primeira; após três anos; e depois de oito anos -, os pesquisadores identificaram que os sintomas de alguns jovens permaneceram ao longo do tempo e outros melhoraram. Ainda uma parte dos indivíduos desenvolveu transtornos durante o acompanhamento do estudo.
A pesquisa foi conduzida com integrantes da Brazilian High Risk Cohort (BHRC) – Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais – um dos maiores estudos do mundo sobre o neurodesenvolvimento, ligado ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM). O projeto – também chamado “Conexões Mentes do Futuro” – acompanha, há mais de 15 anos, 2.500 adolescentes em São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS).
O uso de dados de um grupo comunitário como a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais foi um diferencial para a pesquisa, visto que, distinta a outras investigações que se concentram apenas em amostras clínicas que já estão em acompanhamento por problemas de saúde mental, esta foi realizada com crianças e adolescentes que não necessariamente já haviam buscado ajuda para as condições, visto que muitas famílias sequer tinham identificado essa necessidade antes do projeto.
A pesquisadora principal do estudo é a psiquiatra Sahâmia Martins Ribeiro, vinculada ao Laboratório de Neurociência Integrativa (LiNC), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), instituição parceira do CISM. O projeto foi desenvolvido ao longo do mestrado da psiquiatra e orientado por Pedro Mario Pan, pesquisador do CISM.
Os resultados
No caso das crianças que inicialmente já apresentavam quadros como ansiedade e depressão, os sintomas persistiram em cerca de uma em cada três. Já entre aquelas que não tinham nenhum transtorno na primeira avaliação, por volta de 25% desenvolveu uma condição internalizante em algum momento do acompanhamento. Isso revelou que o surgimento de sintomas na adolescência não só pode ocorrer sem queixas significativas de saúde mental na infância, mas é o cenário mais comum para problemas como depressão.
O estudo científico também revelou que fatores como exposição a maus-tratos na infância estiveram associados ao surgimento de transtornos, destacando a importância dos contextos familiares e ambientais no surgimento de problemas de saúde mental.
Diferenças entre meninas e meninos
A pesquisa ainda indicou que meninas possuem maior probabilidade de seguir trajetórias de persistência ou ocorrência de transtornos em comparação com meninos, o que reflete padrões frequentemente observados em epidemiologia psiquiátrica.
Outro achado relevante foi que os próprios relatos das crianças sobre seus sintomas emocionais, ainda que na infância ou início da adolescência, foram mais fortemente associados às trajetórias persistentes de transtorno do que relatos apenas de seus pais. Segundo os pesquisadores, isso sugere que a experiência subjetiva das crianças, no caso da pesquisa a partir de 6 anos de idade, deve também ser avaliada por ser um indicativo importante de risco futuro.
“As avaliações clínicas devem sempre tentar incorporar diretamente o relato do jovem para melhor captar sinais precoces de sofrimento”, aponta Sahâmia.
Para a psiquiatra, os achados da investigação científica oferecem uma visão longa e detalhada de como os transtornos internalizantes se desenvolvem em uma amostra representativa da população jovem. “Eles indicam que uma parte significativa das crianças com sintomas pode manter esses problemas por muitos anos”, explica.
De acordo com Sahâmia, as descobertas da pesquisa reforçam a necessidade de estratégias de saúde pública e clínica que não só identifiquem sintomas precoces, mas também monitorem crianças e adolescentes ao longo do desenvolvimento, considerando fatores familiares e ambientais que aumentam o risco de sofrimento prolongado.
“Compreender as trajetórias dos transtornos internalizantes desde a infância até a vida adulta é crucial para a formulação de intervenções precoces, apoio continuado e políticas que promovam saúde mental ao longo da vida”, conclui a pesquisadora.
O artigo
O segundo autor do estudo é o Dr. Arthur Caye, gerente de pesquisa do CISM. O artigo ainda inclui entre os pesquisadores outros membros do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental e da Coorte Brasileira: o coordenador Euripedes Constantino Miguel, o vice-coordenador Luis Augusto Rohde, Pedro Mario Pan, Giovanni Abrahão Salum, Rodrigo Affonseca Bressan, Ana Beatriz Ravagnani Salto e Carina de Giusti.
Gostou da pesquisa? Quer saber mais? Acesse o artigo na íntegra neste link.
13 de abril de 2026
Institucional CISM


