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Vivemos epidemia de narcisismo e adolescência em plena pandemia, afirma psiquiatra

11/05/2021

RIO — O uso da máscara não protege a pessoa apenas de pegar, mas também de transmitir o coronavírus. O mesmo vale para álcool gel e distanciamento social. A preocupação com o outro, no entanto, não vem sendo prioridade de todos os brasileiros, constata o psiquiatra Ricardo Krause, que esta semana deu aula sobre comportamento coletivo na Casa do Saber Rio.

Membro internacional da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência, na conversa a seguir Krause recorre a conceitos como a chamada “epidemia de adolescência” para justificar atitudes individualistas e narcisistas no auge de uma pandemia.

Por que vemos uma sociedade tão individualista?

O [sociólogo] Richard Sennett já dizia que vivemos uma epidemia de narcisismo há algum tempo, desde muito antes da Covid. Na Antiguidade, em Roma, as pessoas viviam para a coisa pública; com o tempo, foram ficando tão focadas em si mesmas ao ponto de achar que o que vai comer ou quando vai ao banheiro interessa a todo mundo e merece ser publicado numa rede social, que vai chover porque ela saiu sem guarda-chuva. São exemplos anedóticos, mas, na prática, as pessoas estão mais individualistas e imediatistas, focadas no próprio prazer, não aceitam adiá-lo.

A pandemia favorece este comportamento?

Quando aparece algo que desafia esse senso de poder, é muito desconfortável. Há quem reaja negando, outros hipertrofiam a gravidade da situação. Negacionismo e catastrofismo, com um espectro de possibilidades. Tem também as pessoas que lidam com os fatos como são: enxergam a realidade e ajustam seu pensamento a ela. Mas em tempos muito individualistas, o que muitos fazem é moldar a realidade às suas convicções. Aí surgem as fake news. As pessoas ignoram médicos e cientistas do mundo inteiro e começam a se pautar pelo Whatsapp. O que está por trás disso é uma arrogância tranquilizadora.

Posturas de autoridades podem reforçar o descaso com a pandemia?

Se eu acho que é Deus quem decide, que minha hora está escrita, não preciso andar de máscara. E isso não vale só para religiões: se estende a credos políticos. São crenças absolutas, que não abrem espaço para o questionamento, para aquela dúvida “será que é isso mesmo?” É uma forma de pensar infantil. Sempre vai ter papai e mamãe, Deus, presidente da República. Se alguém diz o que eu acredito, se o grupo cuida de mim, determina minha identidade, não preciso pensar.

Esse perfil é negacionista. Mas um monte de gente segue sem usar máscara. Todas são negacionistas?

O problema é que junto com a epidemia de narcisismo tem uma epidemia de adolescência. E o adolescente se considera muito poderoso, não vê risco algum; ele tem que se opor aos pais, que dizem que tudo é perigoso, para construir a própria identidade. Além disso, a gente funciona pela lei do menor esforço. Quanto menos eu mudar meu estilo e ritmo de vida, melhor. Os argumentos são assim: eu não aguento, eu não consigo ou não é justo.

A punição seria um remédio para essa “epidemia de adolescência”?

Se você está lidando com adolescentes, e está, quando você proíbe acaba desenvolvendo um fenômeno chamado reatância. Aquela história: “Eu vou fazer o contrário do que estou sendo ordenado só para afirmar minha identidade. Não vou deixar nenhum médico, comunista ou grupo que odeio me dizer o que fazer!” Não é um pensamento adulto, amadurecido, pensando nas consequências do que faço no futuro.

Então como atrair as pessoas para as medidas de proteção?

Acho que é reforçar o pedido para não colocar os pais em risco, “proteja a vida de quem quer bem”, essas coisas. Um momento histórico foi quando o Tiago Leifert disse para o povo BBB que a epidemia estava pior. Isso tem efeito. Outra coisa que se usa é disciplina positiva: pegar um casal famoso e dizer coisas bacanas para fazer em casa, sugerir brincar mais com os filhos. E mais personalidades falando sobre a máscara, os riscos, não só sobre vacina. Por último, o que muda as pessoas é sentir a morte de perto. Mas isso a gente não quer.

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