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Pequenos confinados: como o isolamento impacta a saúde das crianças

19/03/2021

“Mamãe, por que a escola está fechada? Por que a gente não pode ver a vovó? Eu estou com coronavírus? Quando é que ele vai embora?” Respondi algumas vezes a essas perguntas dos meus filhos gêmeos de 3 anos sempre com a verdade, mas tentando tomar o cuidado de respeitar a bagagem e o entendimento deles. São muitos outros questionamentos, assim como mudanças de comportamento.

Mas nada mais natural: de repente, os pequenos foram arrancados de sua rotina e trancafiados em casa sob a ameaça de um inimigo invisível. “Não tem jeito. Independentemente da idade, o confinamento vai impactar de alguma forma a vida de todas as crianças”, afirma Guilherme Polanczyk, professor de psiquiatria da infância e adolescência da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

As primeiras repercussões começam a ser apontadas por estudos lá fora. Um levantamento realizado na província chinesa de Xianxim com 320 crianças e adolescentes revela os efeitos psicológicos mais imediatos da pandemia: dependência excessiva dos pais (36% dos avaliados), desatenção (32%), preocupação (29%), problemas de sono (21%), falta de apetite (18%), pesadelos (14%) e desconforto e agitação (13%).

É evidente que tudo varia de acordo com a idade, as características da menina ou do menino, o contexto familiar e social e, principalmente, o jeito com que os adultos ao redor lidam com a situação.

“Na primeiríssima infância, nos primeiros mil dias do bebê, ele só vai perceber o estresse em função da interação com a mãe ou o cuidador”, explica Polanczyk. “Já em crianças entre 3 e 6 anos, o impacto será sentido em termos de organização da nova rotina, tentativas de entendimento das mudanças e até uma possível relação com a doença e a morte. Fora que, nessa fase, elas necessitam de mais espaço para explorar o mundo, o que faz parte da aprendizagem e do desenvolvimento cognitivo”, completa o professor da USP.

Tem uma quarentena no meio do caminho

O confinamento não limita apenas esses horizontes, mas o próprio gasto de energia da garotada. “E os reflexos dessas restrições são agitação, irritabilidade, alterações no sono…”, esclarece Polanczyk. Os sinais de ansiedade também se expressam pelo corpo, com maior ocorrência de dores de cabeça ou barriga, e por comportamentos regressivos — voltar a pedir chupeta, correr para a cama dos pais à noite, retroceder no processo de desfralde etc. São as pistas de que o pequeno procura por estabilidade e segurança, um acolhimento que só os adultos à sua volta podem oferecer.

O enredo fica ainda mais complicado porque ninguém pode ir à escola. Justamente em um momento da vida em que as experiências físicas e as interações sociais são tão importantes. Ainda que as instituições e as famílias corram atrás do prejuízo, diversos estudiosos acreditam que o ensino a distância não seja tão efetivo quanto o presencial. Mas, enquanto durar o isolamento, é preciso encarar e driblar o desafio, criando uma rotina de atividades didáticas e mantendo a conexão com a escola e os coleguinhas virtualmente.

E, aí, outro dilema dá as caras: o limite de uso das telinhas e telonas. No início do ano, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) atualizou suas recomendações para a saúde mental de crianças e adolescentes na era digital, reforçando que a exposição a celular, tablet e afins se restringisse a uma hora por dia entre 2 e 5 anos de idade e, no máximo, duas horas por dia entre 6 e 10 anos, sempre sob supervisão de adultos.

Mas como é que fica para crianças a partir de 7 anos que estão tendo aulas exclusivamente online por causa das circunstâncias? “Precisamos levar em conta as limitações das telas, o desgaste que elas provocam e toda a adaptação que o ensino remoto impõe a escolas e famílias. Mas devemos nos preparar também para eventuais prejuízos com esse processo e pensar em soluções para amenizá-los”, defende Daniel Zandoná Santos, psiquiatra da infância e adolescência da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, em São Paulo.

Segundo posicionamento da SBP, é preciso admitir que as alternativas ao ensino adotadas de forma emergencial não serão suficientes para substituir integralmente a escola e que pode haver um retrocesso na trajetória de aprendizado. Por isso, cabe aos professores e pais se engajar em minimizar os percalços durante a quarentena, e, às instituições e aos governos, planejar estratégias para suprir as defasagens pós-pandemia.

A despeito dos desafios educacionais, a família tem papel protagonista no controle dos impactos emocionais do isolamento social, inclusive para as crianças acima dos 7 anos, que já passam a ter uma compreensão maior da situação. Em um mundo de acesso fácil à informação, é importante que os adultos orientem a garotada em meio ao fluxo de notícias e de sentimentos que pintam com a Covid-19.

“O medo da contaminação e a ameaça à vida podem gerar muita ansiedade, sintomas de obsessividade e até desencadear o aparecimento de um transtorno em quem já tem alguma suscetibilidade”, avisa Zandoná Santos. O que fazer? A saída inclui diálogos honestos, acolhimento e atenção ao comportamento dos mais novos.

Um erro ainda comum, apontam os experts, é menosprezar a presença da ansiedade e da depressão na infância. Elas não são exclusividade de adultos, não. “A expressão é diferente, mas a intensidade pode intensidade pode ser a mesma”, nota o psiquiatra do Einstein. Como crianças podem ter mais dificuldade de verbalizar suas angústias, vale a pena ficar de olho no surgimento e na persistência de sinais de sofrimento psíquico.

“Repare se o sono delas está alterado demais, se não conseguem brincar ou se concentrar, se há muitos episódios de choro ou se tudo isso está interferindo nos estudos”, exemplifica Polanczyk.

O sono, aliás, é um capítulo à parte. A começar pelo fato de ele ser um dos primeiros a serem prejudicados com períodos de estresse. Só que o repouso noturno é crucial para o aprendizado — é ao dormir que o cérebro consolida as memórias. De acordo com um documento do Núcleo Ciência pela Infância sobre as repercussões da pandemia entre os pequenos, há inúmeras evidências da influência do sono no desenvolvimento cognitivo e emocional.

Daí a necessidade de continuar zelando pelas noites da criançada. Na prática, isso passa por estabelecer horários para acordar, se alimentar, realizar as atividades e ir para a cama (num ambiente silencioso e escurinho, por favor). A rotina cria a noção de previsibilidade e segurança tão estimada pelos filhos. Tranquilos, eles dormem melhor.

No dia a dia, Polanczyk aconselha aos pais não querer bancar a toda hora o recreador ou o professor, além de assumir que o momento atual é de aprendizado para todos. Ainda assim, é recomendável falar sempre a verdade e dar explicações de acordo com a maturidade de cada um. “E cuidado com as fantasias das crianças. É preciso ouvir o que elas estão imaginando para mostrar como lidar com as coisas e, em vez de negação, ensinar atitudes de enfrentamento”, prescreve Zandoná Santos.

Leia na íntegra: saude.abril.com.br/familia