Conduzida por dois psiquiatras do IPq e doutorandos do CISM, a pesquisa identificou níveis de psicopatologia e fatores associados à ALNS, com a ajuda da Inteligência Artificial
Um estudo, recém-publicado no periódico “Translational Psychiatry”, identificou dois diferentes perfis entre entre crianças e adolescentes com relatos de autolesão não suicida (ALNS). A pesquisa avaliou os indivíduos em duas fases da vida – dos 9 aos 18 anos e dos 13 aos 23 anos – e, utilizando algoritmos de machine learning (aprendizado de máquina), classificou os participantes em dois grupos: de alta e baixa psicopatologia, ou seja, com altos e baixos níveis de sintomas psiquiátricos e psicológicos.
A identificação desses padrões possibilita a adoção de estratégias de intervenção precoce e melhor direcionadas para pacientes que se enquadrem nos diferentes perfis.
Do total de 1.345 participantes, 244 apresentaram relatos de ALNS, sendo 117 caracterizados com perfil de alta psicopatologia e 127 de baixa. Os indivíduos integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (Brazilian High Risk Cohort – BHRC), projeto que acompanha, há 15 anos, 2.500 crianças e adolescentes, em São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS), em uma investigação sobre a origem dos transtornos mentais.
A pesquisa foi conduzida pelos psiquiatras Dr. Marcos Croci e Dr. Marcelo Brañas, como parte dos estudos de doutorado que desenvolvem no Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM). Ambos atuam também como cocoordenadores do Ambulatório para o Desenvolvimento dos Relacionamentos e das Emoções (ADRE), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo (FMUSP), voltado ao atendimento de adolescentes de 13 a 17 anos.
Os dois perfis
Os indivíduos caracterizados pelo perfil de “alta psicopatologia” foram aqueles que desenvolveram fatores associados à ALNS mais precocemente. Estes participantes apresentaram sintomas psiquiátricos persistentes e mais graves, além de adversidade social significativa ao longo do desenvolvimento, como problemas familiares e bullying.
Este grupo apresentou múltiplas experiências de adversidade desde a infância até o final da adolescência. Nas idades de 6 a 14 anos, por exemplo, este perfil esteve associado a diversos fatores frequentemente considerados de risco para a autolesão não suicida, como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e conflitos relacionais.
Com a idade média de 13,5 anos, começaram a emergir sintomas psiquiátricos, incluindo depressão, ansiedade, sintomas de transtornos alimentares e desregulação emocional, juntamente com a continuidade de experiências adversas, como bullying. Já ao redor dos 18 anos, o relato de ALNS apareceu de forma concomitante a transtornos psiquiátricos, como depressão, comportamentos de agressividade e experiências traumáticas.
Segundo os pesquisadores, os indivíduos deste grupo apresentam trajetória de vida consistente com um “efeito de cascata” do desenvolvimento, no qual interações cumulativas entre diversos fatores ao longo do tempo levam a níveis crescentes de psicopatologia.
“Esses comportamentos podem servir como um sinal inicial dos jovens que mais necessitam de intervenções para conter o desenvolvimento de psicopatologia complexa e de suicidabilidade durante um período sensível do desenvolvimento cerebral. Este estudo ajuda a identificar populações em risco”, destaca o psiquiatra e pesquisador Dr. Croci.
Já o perfil identificado como de “baixa psicopatologia” experimentou problemas de saúde mental apenas mais tardiamente no desenvolvimento, com desafios menos graves ao longo do tempo, como suspensão escolar e sintomas depressivos mais leves. Este grupo não esteve associado a tantos fatores clínicos de risco claros no início da vida comumente ligados à ALNS, o que sugere um perfil menos vulnerável. Esses jovens também tiveram menos problemas de sono, assim como menos conflitos familiares e dificuldades com amigos, refletindo um ambiente mais estável da infância ao início da adolescência.
Os desafios para o grupo de baixa psicopatologia manifestaram-se mais tardiamente, com alguns participantes desenvolvendo Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), TDAH, dificuldades psicossociais e alguns sintomas depressivos. Segundo os pesquisadores, os comportamentos de autolesão não suicida podem surgir para estes jovens como um “mecanismo de regulação emocional” em situações estressantes típicas da adolescência em vez de um sintoma de uma psicopatologia grave e generalizada.
Inteligência Artificial
Para identificar os perfis distintos nos jovens que apresentaram relatos de autolesão não suicida na fase dos 13 aos 23 anos, os cientistas utilizaram, primeiramente, algoritmos de aprendizado de máquina não supervisionados (Self-Organizing Maps e k-means). Em seguida, aplicaram três modelos supervisionados – Regressão Logística (RL) e os algoritmos Elastic Net (EN) e Random Forest (RF) para identificar os preditores desses perfis, ou seja, os fatores que, mais tarde, se mostraram como associados com a alta ou a baixa psicopatologia.
Estratégias de intervenção
A autolesão não suicida refere-se a danos corporais deliberadamente cometidos sem a intenção imediata de morrer. A ALNS é prevalente entre jovens, com taxas observadas de 17,4% entre adolescentes de 10 a 18 anos e de e 13,4% em adultos jovens de 18 a 24 anos. O comportamento é uma importante preocupação de saúde pública, visto que indivíduos que se autolesionam apresentam maior probabilidade de tentarem suicídio e de desenvolverem problemas de saúde mental, como depressão e abuso de substâncias.
Entre os principais fatores de risco identificados para a ALNS estão os transtornos mentais, as experiências adversas na infância, o bullying e problemas familiares. Já alguns outros são apontados como de proteção para o surgimento desse comportamento, como o senso de pertencimento, relações positivas com os pais e uma vida social saudável.
Os cientistas explicam que os dois perfis identificados no estudo – alta e baixa psicopatologia – diferem quanto aos níveis de psicopatologia e aos fatores associados, o que, segundo eles, ressalta a necessidade de criação de estratégias de intervenção precoce personalizadas para cada um dos dois padrões. “Tais intervenções podem melhorar o prognóstico desses grupos, reduzindo a probabilidade de desfechos graves na vida adulta e potencialmente prevenindo a suicidabilidade”, explicam os médicos psiquiatras.
Para os pesquisadores, os achados destacam a importância da intervenção precoce para prevenir o desenvolvimento de trajetórias associadas a níveis mais elevados de psicopatologia. “Adiar a intervenção até que o limiar diagnóstico seja atingido significa perder uma janela crítica do desenvolvimento adolescente, impondo um custo substancial às trajetórias de saúde mental e ao funcionamento psicossocial de jovens vulneráveis”, chama atenção o Dr. Croci, doutorando e pesquisador do CISM.
Segundo o Dr. Brañas, as intervenções para a prevenção da ALNS devem integrar uma postura de cuidado humanizado para além das intervenções clínicas e avaliações de risco. “Os serviços devem adotar estratégias multimodais que abranjam também os sistemas educacional, comunitário, social e de saúde, em vez de se concentrarem exclusivamente nos sintomas individuais”, aponta o médico psiquiatra formado pela FMUSP.
Em relação ao grupo identificado como de “alta psicopatologia”, os pesquisadores chamam atenção para o uso comum de estabilizadores de humor por esses indivíduos. Fato que, para eles, destaca a necessidade de programas de intervenção precoce que utilizem abordagens de regulação emocional e mentalização e que adotem estratégias não meramente farmacológicas, mas que considerem um contexto social mais amplo.
“Isso reforça a importância de construir serviços de saúde mental que integrem o contexto social, e que não foquem apenas na psicopatologia ou nos sintomas. A psicoeducação e o suporte às famílias que lidam com condições externalizantes podem ajudar a reduzir fatores de risco familiares, e intervenções escolares anti-bullying podem aliviar estressores para jovens já vulneráveis”, comenta o Dr. Brañas.
Já dentre os indivíduos com o perfil de “baixa psicopatologia”, os pesquisadores apontam maior dificuldade em distinguir os com e sem relatos de ALNS. Por isso, frisam a importância de evitar a patologização excessiva do comportamento e, ao invés disso, focar na ampliação do acesso a intervenções e programas voltados para estratégias alternativas de regulação emocional.
“Ainda assim, a intervenção precoce permanece fundamental também para os casos de baixa psicopatologia”, ressalta o pesquisador. Para o Dr. Brañas, uma barreira importante ao tratamento é que esses jovens tendem, muitas vezes, a buscar apenas o apoio informal das redes sociais ou evitar a busca por ajuda profissional devido ao estigma ou à ideia de que não estão “doentes o suficiente”.
“Essa percepção pode ser reforçada por sistemas que não reconhecem a baixa especificidade sindrômica dos problemas de saúde mental na adolescência. Dessa forma, iniciativas de psicoeducação em saúde mental podem ser particularmente benéficas para esse grupo”, conclui o psiquiatra.
Artigo
Intitulado “Psychopathology profiles and longitudinal correlates of nonsuicidal self-injury in youth: a machine-learning approach”, o artigo reúne pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e da Brazilian High Risk Cohort (BHRC). Entre os autores brasileiros, destacam-se Euripedes Constantino Miguel e Pedro Mario Pan, com papel importante na supervisão científica do projeto e na integração do estudo à agenda longitudinal da Coorte. O trabalho também contou com a participação de Arthur Caye, Luis Augusto Rohde e Giovanni Abrahão Salum, entre outros colaboradores.
O estudo foi desenvolvido em colaboração com pesquisadores do McLean Hospital (Harvard Medical School) e do Reino Unido, fortalecendo a ponte entre a pesquisa brasileira em desenvolvimento e modelos contemporâneos de psicopatologia do neurodesenvolvimento. Em particular, Lois W. Choi-Kain, MD, diretora do Gunderson Personality Disorders Institute (McLean Hospital), é a autora sênior do artigo e teve papel central na supervisão científica e no enquadramento conceitual e interpretativo dos achados, em parceria com a equipe brasileira.
O trabalho também contou com a participação de Boyu Ren e Ellen Finch (McLean Hospital), além de pesquisadores vinculados ao MRC Cognition and Brain Sciences Unit, University of Cambridge (Cambridge, UK), e à School of Psychological Science, University of Bristol (Bristol, UK), contribuindo para as análises, a discussão e a contextualização dos resultados no cenário internacional.
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24 de fevereiro de 2026
Mainary Nascimento, Institucional CISM


