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Estudo aponta impactos na vida de adolescentes que se tornam mães e destaca a importância de programas psicossociais para apoio

Estudo aponta impactos na vida de adolescentes que se tornam mães e destaca a importância de programas psicossociais para apoio 1498 842 INPD Cism

Foram identificados cinco principais domínios na experiência de gestações precoces; a análise foi feita por pesquisadores do programa “Primeiros Laços”

Pesquisadores do programa “Primeiros Laços” identificaram cinco grandes impactos experimentados por adolescentes e jovens que se tornam mães. Os chamados “domínios experienciais” foram avaliados nas participantes da segunda onda do projeto, que ocorreu na cidade de São Paulo (SP) entre 2018 e 2021, e detalhados em um artigo recém-publicado no periódico “Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health”.   

Os pesquisadores recrutaram 72 gestantes, com idades entre 14 e 19 anos, provenientes de bairros de baixa renda da capital paulista. As jovens foram inseridas no programa que oferece apoio psicossocial a partir de visitas domiciliares de enfermeiras. A maioria delas se identificou como preta ou parda e todas estavam na primeira gestação. 

As participantes passaram por entrevistas abertas durante a gravidez e novamente aos 3, 12 e 24 meses após o parto de seus filhos, totalizando 223 entrevistas. Com base nas respostas, os cientistas analisaram como as experiências vividas evoluíram ao longo do tempo e identificaram as maiores transformações como cinco domínios experienciais. 

  1. Reações à descoberta da gravidez – fase marcada por ambivalência, emoções conflitantes;
  2. Mudanças na vivência do corpo – com o aumento percepção do próprio corpo e, por vezes, sofrimento emocional expresso por meio de sensações físicas;
  3. Formação da identidade materna – a ressignificação de papéis adolescentes prévios à gestação para um self materno emergente;
  4. Transformações na experiência do tempo – abrangendo horizontes de futuro que foram alterados pela gestação ou o desejo de se apegar ao presente; e
  5. Ressignificação das relações – quando o filho passa a se tornar uma fonte central de significado e reciprocidade emocional.

A análise foi conduzida por Débora Tseng Chou, pesquisadora do “Primeiros Laços” e doutoranda em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), com bolsa pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM).  

Para a pesquisadora, os achados do estudo destacam como estruturas existenciais de temporalidade, corporeidade, identidade e intersubjetividade moldam a maternidade na adolescência. “A gestação e o cuidado inicial intensificaram a consciência sobre o corpo e reorganizaram as perspectivas temporais, com algumas adolescentes vivenciando a ampliação de possibilidades e outras, uma sensação de estagnação. As relações foram reorientadas em torno do filho como um novo centro experiencial”, destaca a psiquiatra. 

Os dados revelados pelo estudo demonstram a importância de intervenções psicossociais em momentos em que o futuro pode ser vivenciado como assustador, como uma gestação na adolescência. “Essas intervenções devem oferecer informações claras que favoreçam a consciência sobre sobre as mudanças do corpo e garantam a continuidade do cuidado de mãe e filho. Uma postura não julgadora, que respeite os valores de cada mãe e ao mesmo tempo amplie gradualmente os horizontes de vida pode fortalecer as competências maternas e ajudar a expandir as possibilidades das jovens para além da maternidade”, ressalta Débora. 

O programa “Primeiros Laços”

A adolescência é um período de formação da identidade. Quando a maternidade ocorre nessa fase, provoca uma complexidade adicional para as jovens mães, visto que elas precisam negociar a percepção de si mesmas enquanto assumem papéis de cuidado. 

A psiquiatra explica que essa experiência é, ainda, moldada por preparo limitado, estigma social, frequente ausência do parceiro, evasão escolar, solidão e sofrimento emocional. Diante deste contexto, o “Primeiros Laços” implementa uma intervenção sensível ao desenvolvimento do bebê e ao cuidado da relação entre mãe e filho. 

O programa consiste na realização de visitas domiciliares de enfermeiras a jovens mães de primeira viagem para acompanhamento de saúde mental e do desenvolvimento cognitivo dos bebês desde a gestação até os 2 anos de idade da criança. 

As enfermeiras orientam as participantes sobre a preparação para o parto e a rotina que terão com o filho após o nascimento. O acompanhamento ainda inclui assistência à saúde mental, emocional e física das participantes, bem como de seus bebês.

Jovens de 14 a 24 anos, residentes em Indaiatuba (SP) e Jaguariúna (SP) e que estejam na primeira gravidez, podem procurar a UBS mais próxima para participar. Não há limite mínimo de período gestacional, porém, é necessário estar com até 20 semanas.

As interessadas também podem contatar a equipe do projeto para tirar dúvidas por meio do WhatsApp (19) 99568-8845 ou do e-mail primeiros.lacos.cism@gmail.com. O programa possui, ainda, um perfil no Instagram. Acesse para saber mais: @primeiroslacos_ 

O programa é desenvolvido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), em parceria com as secretarias municipais de saúde das duas cidades e com o Centro Universitário Max Planck (UniMAX) e Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ). 

O artigo científico 

Intitulado “Maternidade na adolescência: um estudo qualitativo da experiência vivida por participantes de uma intervenção de visitas domiciliares perinatais”, o artigo com os resultados da análise incluiu outros membros do CISM e do “Primeiros Laços” entre os autores: o coordenador Euripedes Constantino Miguel e os pesquisadores Lislaine Aparecida Fracolli, Vinicius Nagy Soares, Arthur Caye, Emilio Abelama Neto, Daniel Fatori, Natalia Becker, Ana Alexandra Caldas Osório e Guilherme Vanoni Polanczyk.  

Gostou do estudo? Quer saber mais? Acesse o artigo completo clicando AQUI.

24 de fevereiro de 2026 

Institucional CISM