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Estudo confirma que o programa “Primeiros Laços” melhora a qualidade do ambiente familiar e o vínculo materno

Estudo confirma que o programa “Primeiros Laços” melhora a qualidade do ambiente familiar e o vínculo materno 1280 947 INPD Cism

O projeto é voltado a jovens gestantes, mães “de primeira viagem”; dados foram analisados cientificamente e os resultados de efetividade publicados em um periódico internacional

Um estudo avaliou dados coletados nas primeiras ondas do programa “Primeiros Laços” e confirmou sua efetividade para melhorar a qualidade do ambiente familiar e o vínculo entre mães adolescentes e seus filhos. O programa consiste em visitas domiciliares de enfermeiras a jovens mães de primeira viagem para acompanhamento de saúde mental e do desenvolvimento dos bebês desde a gestação até os 2 anos de idade da criança. 

A conclusão da análise científica foi publicada, no dia 25 de abril deste ano, no periódico Frontiers in Global Women’s Health. Atualmente, o programa é conduzido nos municípios de Indaiatuba e Jaguariúna, interior de São Paulo, pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), em parceria com o Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ), o Centro Universitário Max Planck (UniMAX) e as prefeituras de ambas cidades. 

O estudo avaliou dados coletados de participantes do projeto entre agosto de 2015 e maio de 2018. No total, 169 gestantes foram recrutadas, sendo que 80 completaram o acompanhamento: metade no grupo intervenção e a outra parte no controle. Na ocasião, o programa, que ainda era chamado “Jovens Mães Cuidadoras”, foi desenvolvido em serviços de saúde da zona oeste da capital paulista, direcionado a comunidades vulneráveis.  

As participantes tinham entre 14 e 19 anos, um grupo considerado de alto risco para desfechos negativos no desenvolvimento infantil. Cada jovem recebeu entre 60 e 63 visitas domiciliares das enfermeiras capacitadas. Durante o serviço, foram trabalhados temas como vínculo afetivo, estimulação cognitiva, práticas de cuidado e saúde materno-infantil. 

Os resultados 

Para medir o impacto do projeto, os pesquisadores utilizaram o IT‑HOME (Observação Domiciliar para Medição do Ambiente na Primeira Infância), instrumento internacional que avalia a qualidade do ambiente doméstico de uma criança e o suporte ao desenvolvimento infantil, como estimulação cognitiva e apoio emocional. 

Os dados mostraram um ganho relevante para as participantes do programa. Aos 24 meses dos bebês, as mães do grupo intervenção, ou seja, aquelas que receberam as visitas domiciliares das enfermeiras, tiveram uma pontuação mediana de 30 no IT‑HOME, enquanto as outras do grupo controle, que não tinham o acompanhamento das profissionais, marcaram 25, uma diferença de 5 pontos no instrumento de medição. Isso significa um ambiente familiar com mais qualidade para o crescimento das crianças.  

Para os pesquisadores que conduziram o estudo, essa diferença é considerada “significativa”, especialmente em um contexto de alta vulnerabilidade social. 

Um dos avanços mais notáveis foi percebido na análise relacionada à capacidade de “responsividade emocional e verbal” das jovens. Mães com Ensino Fundamental do grupo intervenção tiveram um índice 4,5 pontos maior do que as participantes do outro grupo (controle) aos 6 meses de vida de seus bebês, e 3 pontos a mais aos 24 meses. 

“O impacto do programa foi mais expressivo justamente entre mães com menor escolaridade, um grupo tradicionalmente mais exposto a barreiras no acesso a informações e práticas de cuidado”, destaca Letícia Aparecida da Silva, pesquisadora do programa. Segundo a enfermeira, o resultado reforça a importância de políticas públicas que apoiem a parentalidade positiva e o desenvolvimento infantil já nos primeiros anos da criança. 

Letícia diz que o estudo mostra que estratégias – como as aplicadas pelo “Primeiros Laços” – têm potencial para reduzir desigualdades no desenvolvimento infantil, pois promovem um ambiente familiar mais favorável desde os primeiros anos de vida dos filhos.

“Em um país com altas taxas de gravidez na adolescência e marcado por desigualdades sociais, a aposta em programas domiciliares estruturados aparece como um caminho viável para fortalecer o cuidado na primeira infância, um período decisivo para o pleno desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças”, conclui a enfermeira.

As pesquisadoras Letícia (de branco) e Lislaine (sentada) com parte da equipe que atua no programa (Arquivo pessoal)

O artigo 

O artigo publicado na revista internacional tem autoria de Letícia, além de outros integrantes do CISM – a professora Lislaine Aparecida Fracolli, também pesquisadora do Primeiros Laços; o coordenador Euripedes Constantino Miguel; e Guilherme Polanczyk. 

Gostou do estudo? Quer saber mais? Acesse a íntegra do paper neste link

O Primeiros Laços

Nas visitas domiciliares oferecidas pelo programa, as enfermeiras orientam as participantes sobre a preparação para o parto e a rotina que terão com o bebê, como troca de fralda, banho, amamentação, entre outras ações. O acompanhamento ainda inclui assistência à saúde mental, emocional e física das participantes, bem como de seus bebês.

Jovens de 14 a 24 anos, residentes em Indaiatuba e Jaguariúna, que estejam na primeira gravidez, devem procurar a UBS mais próxima para participar. Não há limite mínimo de período gestacional, porém, é necessário estar com, no máximo, 20 semanas.

As interessadas também podem contatar a equipe do projeto para tirar dúvidas por meio do WhatsApp (19) 99568-8845 ou do e-mail primeiros.lacos.cism@gmail.com. O programa possui, ainda, um perfil no Instagram. Acesse para saber mais: @primeiroslacos_

23 de julho de 2025  

Institucional CISM