Pedro Henrique Destro e Rafaella Ormond utilizam dados da BHRC em suas pesquisas; eles foram selecionados para o SIRS, o congresso mais importante do mundo sobre esquizofrenia
Dois jovens alunos de doutorado que utilizam dados de um projeto ligado ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) foram selecionados como um dos 92 pesquisadores do “2026 Early Career Awards”. Ambos terão a oportunidade de apresentar seus estudos no Congresso Anual da Schizophrenia International Research Society (SIRS), que acontecerá entre os dias 25 e 29 de março, em Florença, na Itália.
Os indicados – Pedro Henrique Destro e Rafaella Ormond – são biomédicos e orientandos de Marcos Leite Santoro, pesquisador do CISM e professor do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), uma das instituições parceiras do CISM. Eles desenvolvem estudos com dados da Brazilian High Risk Cohort (BHRC), também chamada “Conexões Mentes do Futuro”, projeto vinculado ao CISM.
O “Early Career Awards” faz parte de um programa criado para apoiar e incentivar pesquisadores emergentes dedicados ao avanço da pesquisa em esquizofrenia. A seleção é feita entre jovens pesquisadores em início de carreira que demonstraram forte interesse científico e profissional na área por meio de suas atividades de pesquisa, ensino ou clínicas.
Em meio a um número recorde de candidatos do mundo todo, Pedro e Rafaella ficaram entre os escolhidos pelo Comitê de Educação da SIRS. Além de terem suas pesquisas apresentadas em pôster no congresso, os doutorandos terão a chance de interagir com especialistas internacionais renomados e participar de eventos especializados.
O biomédico Pedro conta que não estava esperando e ficou “muito feliz e honrado” com a indicação, especialmente por se tratar de um dos principais congressos internacionais em esquizofrenia, área para a qual dedica a sua pesquisa. “É muito legal ver o trabalho sendo reconhecido nesse contexto. Para mim, também acaba sendo um incentivo importante para continuar desenvolvendo pesquisas na área”, celebra o jovem.
No ano passado, Pedro e Rafaella participaram do “World Congress of Psychiatric Genetics (WCPG)”, que aconteceu em Cancún, no México – confira neste link. Na ocasião, os jovens também foram finalistas de um prêmio. Pedro destaca como “muito importante” a oportunidade de apresentar o próprio trabalho, receber sugestões e comentários de pesquisadores renomados, além de fazer um bom networking. “É um ambiente muito bom para assistir palestras sobre temas bem atuais da área”, comenta o biomédico.
Os dois alunos também foram convidados para participar da escrita de um artigo coletivo do congresso, que reunirá discussões apresentadas em diferentes palestras.
Assim como o colega, Rafaella também ficou surpresa com a indicação. “É sempre muito gratificante ter o trabalho reconhecido, especialmente em um congresso tão relevante para a área. A seleção foi também uma surpresa muito positiva. O SIRS é um dos principais eventos científicos voltados à pesquisa em esquizofrenia, que é justamente o foco da minha pesquisa de doutorado. Esse tipo de reconhecimento também funciona como um grande incentivo para continuarmos investigando e avançando na área”, comemora a doutoranda.
A jovem destaca que, por reunir pesquisadores de diferentes países que trabalham com esquizofrenia, o evento permite o recebimento de sugestões e discussões importantes para o seu trabalho, além do acompanhamento de avanços recentes da área e da ampliação das colaborações científicas. No WCPG, além de ter sido finalista do prêmio Hugh Gurling, Rafaella recebeu também o Early Career Investigator Program Award.
A pesquisa de Pedro

Pedro é biomédico e começou a atuar em pesquisa ainda na graduação, como aluno de IC
(Foto: Arquivo pessoal)
O trabalho de Pedro busca entender como fatores genéticos e ambientais, como o uso de substância, interagem para influenciar o desenvolvimento de transtornos mentais. No estudo que será apresentado no congresso, ele investiga a interação entre variantes genéticas e o uso de cannabis, analisando como essa relação pode influenciar o surgimento de experiências psicóticas. Segundo explica, a ideia é entender melhor por que algumas pessoas podem ser mais vulneráveis aos efeitos de certos fatores ambientais do que outras.
“Fico muito feliz de poder representar o nosso grupo de pesquisa e a UNIFESP em um congresso internacional como esse, mostrando resultados de pesquisas feitas com dados de coortes brasileiras”, enfatiza o jovem. “Vale destacar a importância das coortes e dos participantes que contribuem com esse tipo de pesquisa. Trabalhos como esse só são possíveis graças a esses dados e ao esforço de muitos pesquisadores envolvidos”.
A BHRC
A Brazilian High Risk Cohort Study (BHRC), coorte destacada por Pedro e também utilizada por Rafaella, é um dos mais importantes estudos do mundo sobre o desenvolvimento do cérebro. O projeto, que no CISM recebe o nome “Conexão Mentes do Futuro”, investiga as origens genéticas e ambientais dos transtornos mentais. Há uma década e meia, os pesquisadores da BHRC acompanham 2.500 jovens em São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS), possibilitando estudos que contribuem para o avanço da ciência.
O biomédico destaca que a BHRC é uma coorte muito rica em termos de tipos de dados disponíveis, já que reúne centenas de milhares de informações clínicas, ambientais e também genéticas dos participantes. Ele ressalta, ainda, que a existência de dados de uma coorte brasileira é muito importante para ampliar a diversidade nas pesquisas em genética, já que muitos estudos ainda são feitos principalmente com populações europeias.
“Nesse sentido, a Brazilian High Risk Cohort ajuda a colocar dados de populações brasileiras em destaque em pesquisas internacionais”, enfatiza o jovem pesquisador.
Na mesma linha de Pedro, Rafaella também ressalta o valor da BHRC. Para a jovem pesquisadora, a existência de uma coorte brasileira com tamanha riqueza de informações é muito importante para o avanço da ciência nacional, pois possibilita o desenvolvimento de estudos que considerem as particularidades genéticas e populacionais do Brasil.
“Fazer pesquisa no Brasil envolve muitos desafios, mas também é muito gratificante poder desenvolver ciência em um grupo com grande relevância e trabalhando com coortes tão completas como a BHRC”, comenta a jovem. “O reconhecimento em congressos internacionais como esse é sempre muito estimulante e reforça a importância de continuarmos investindo em pesquisa e colaboração científica”, acrescenta.
A pesquisa de Rafaella

Rafaella também atua em outros projetos de pesquisa e participa do Latin American Genomic Consortium (LAGC) (Foto: Arquivo pessoal)
O projeto de Rafaella avalia diferentes ferramentas de predição de risco genético para esquizofrenia, investigando quais apresentam melhor desempenho em populações brasileiras. Esta predição significa a estimativa da probabilidade de uma pessoa desenvolver uma determinada doença ou característica com base no seu material genético, o DNA.
Segundo detalha a doutoranda, muitas dessas ferramentas de predição foram desenvolvidas principalmente com base em populações de ancestralidade europeia e, quando aplicadas em populações miscigenadas, como a brasileira, tendem a apresentar menor precisão. Por isso, o objetivo do estudo da jovem é identificar quais métodos são mais adequados para esse contexto, contribuindo para o avanço da medicina de precisão no Brasil.
O trabalho que será apresentado no evento faz parte da linha principal do doutorado de Rafaella. Relacionada à área de genética psiquiátrica, o doutorado da pesquisadora é focado em melhorar a aplicação de escores poligênicos em populações miscigenadas.
Formando novos cientistas
Biomédico pela UNIFESP, Pedro iniciou sua trajetória no mundo da pesquisa ainda na graduação, como aluno de Iniciação Científica (IC) no laboratório do professor Marcos Leite Santoro, e seguiu no mesmo grupo até o presente doutorado, que ainda está no início.
Rafaella somou-se ao laboratório agora no doutorado, que já se encaminha para as etapas finais. A jovem foi pesquisadora visitante na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, por um ano e, atualmente, participa de outros projetos, bem como é co-chair do Molecular Epidemiology and Functional Genomics Working Group, do Latin American Genomic Consortium (LAGC).
Uma das frentes de atuação do CISM é compartilhar conhecimento e incentivar a formação de novos talentos na área de pesquisa em saúde mental. Para o Professor Santoro, a seleção dos alunos de doutorado para um congresso tão relevantes demonstra o potencial da ciência brasileira e das futuras gerações de cientistas do país. “É um congresso que a gente tem buscado enviar um representante em todas as edições para sempre colocarmos a bandeirinha do Brasil representando muito bem a gente lá”, afirma.
O professor destaca que em outras áreas, como a medicina, os profissionais recebem um feedback mais rápido e direto sobre o impacto do seu trabalho, como a melhora do paciente, já em ciência é diferente, por isso, a participação em um evento como esse significa um reconhecimento importante depois de tanta dedicação aos estudos.
“Para os alunos, é muito legal, eles ficam super felizes e se sentem valorizados. Esse tipo de indicação nesta fase da carreira, dá uma tranquilidade para eles de que estão seguindo o caminho certo, fazendo a coisa certa e entendendo que o trabalho deles é relevante não só a nível nacional, mas internacionalmente. Fica claro que eles e a pesquisa deles têm uma relevância internacional”, destaca o orientador dos doutorandos.
O Professor Santoro também teve a mesma oportunidade há alguns anos, sendo selecionado para o congresso, o qual define como “um divisor de águas em sua carreira”. Na época, a mentoria que recebeu no evento apontou um caminho a trilhar no fim do doutorado e quais passos poderia tomar para seguir com sucesso na carreira.
O pesquisador ressalta, ainda, que a seleção motiva não apenas os escolhidos, mas todo o grupo de pesquisa. “Estou acompanhando três alunos de Iniciação Científica e eles ficam super animados para continuar até o doutorado comigo, de seguir fazendo pesquisa no CISM, no grupo, porque eles estão vendo que é um caminho bom, que os outros colegas que estão um pouco mais à frente estão sendo bem sucedidos”, conclui.

O pesquisador Marcos Leite Santoro é professor-adjunto na UNIFESP e orienta desde alunos de IC até doutorado (Foto: Arquivo pessoal)
24 de março de 2026
Institucional CISM


