A pesquisa científica, feita com 2,8 mil participantes, revelou condições associadas com tentativas de suicídio e internação psiquiátrica entre trabalhadores da saúde
Um estudo científico realizado com profissionais brasileiros da área da saúde identificou os fatores que aumentam o risco de tentativas de suicídio e de internações psiquiátricas entre eles. Ao longo de seis meses, a pesquisa acompanhou 2.815 trabalhadores que cuidam da saúde da população e revelou dois sinais importantes de sofrimento mental: pensamentos suicidas e distúrbios graves do sono.
O estudo analisou dados de profissionais que buscaram apoio psicológico em uma plataforma digital criada durante a pandemia da Covid-19. Os participantes foram recrutados em todo o país entre maio de 2020 e dezembro de 2021. E, ao longo de 4, 12 e 24 semanas, os pesquisadores identificaram quais características estavam associadas a desfechos mais graves de saúde mental, obtendo resultados contundentes.
O principal fator de risco identificado – tanto para tentativas de suicídio quanto para necessidade de internação psiquiátrica – foi o pensamento suicida frequente. Profissionais que relataram ideação suicida quase todos os dias apresentaram um risco muito maior de evoluir para quadros graves quando comparados àqueles sem esse tipo de pensamento.
As análises foram feitas a partir da coleta de dados demográficos dos participantes, do item 9 do Questionário de Saúde do Paciente-9 (ideação suicida), além de sintomas de depressão, ansiedade, irritabilidade, sono, satisfação com a vida e de burnout avaliados por meio de questionários validados.
Outro achado importante da pesquisa foi o papel do sono. A investigação científica indicou que distúrbios severos relacionados ao sono, como insônia intensa e persistente, também estiveram fortemente associados ao risco de tentativa de suicídio.
Os pesquisadores perceberam, ainda, que quando os dois fatores ocorriam juntos, o risco aumentava de forma desproporcional, sugerindo que ambas as condições se potencializam mutuamente para o aumento do sofrimento psíquico desses profissionais.
“Entre aqueles que apresentavam simultaneamente ideação suicida quase diária e distúrbios severos do sono, a probabilidade de tentativa de suicídio foi dramaticamente maior do que entre os profissionais sem esses sintomas”, chama atenção o condutor do estudo, o psiquiatra Dr. Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), no qual coordena o projeto “SAVE Study”.
Do total de participantes, 46 (1,63%) tentaram suicídio e 60 (2,22%) necessitaram de internação psiquiátrica – a maioria desses (86%) eram mulheres, com idade média de 36 anos.
Apesar de a pesquisa ter sido realizada em um contexto de pandemia, período marcado por jornadas exaustivas, luto frequente e sobrecarga emocional intensa, os cientistas ressaltam que os achados vão além daquele momento específico.
“As descobertas refletem vulnerabilidades estruturais da prática em saúde, marcada por alta carga de responsabilidade, pressão constante e, muitas vezes, pouca atenção ao cuidado com a saúde mental dos próprios profissionais”, destaca o psiquiatra.
Cuidar de quem cuida
A principal recomendação deixada pelo estudo é que sinais como pensamentos suicidas persistentes e alterações importantes do sono devem ser levados a sério e investigados de forma sistemática. Para os pesquisadores, estratégias de triagem em serviços de saúde, programas contínuos de apoio psicológico e ambientes de trabalho mais atentos ao bem-estar emocional podem ser decisivos para prevenir desfechos graves.
“Ao evidenciar fatores de risco identificáveis e potencialmente modificáveis, a pesquisa reforça a necessidade de cuidar de quem cuida. Reconhecer precocemente o sofrimento psíquico dos profissionais de saúde não é apenas uma questão individual, mas um desafio coletivo, com impacto direto na qualidade do cuidado oferecido à sociedade”, conclui o Dr. Damiano.
Os estudo
Os resultados da pesquisa foram publicados, em dezembro do ano passado, no periódico “The Journal of Clinical Psychiatry” – confira aqui.
Além do Dr. Damiano, outros dois pesquisadores do CISM estão entre os autores: o coordenador Euripedes Constantino Miguel e Giovanni Abrahão Salum.
17 de março de 2026
Institucional CISM


