Pesquisa

Por meio de seus projetos, o INPD estuda o neurodesenvolvimento no contexto do campo emergente da neurociência populacional – a fim de integrar a investigação das neurociências com métodos de amostragem da epidemiologia e entender diferenças individuais relacionadas aos transtornos mentais – e transforma os resultados alcançados com base em evidências, com relevância clínica e social, em modelos que podem ser empregados por agências governamentais ou diferentes segmentos da sociedade.

 

1. Coorte de Alto Risco para Transtornos Psiquiátricos

A Coorte de Alto Risco, chamado Projeto Conexão – Mentes do Futuro, pretende melhorar o entendimento de como o ambiente e os genes afetam o desenvolvimento do cérebro.  e seus correlatos comportamentais, emocionais e de aprendizagem na adolescência e vida adulta. Com estudo que usa um desenho longitudinal acelerado com coortes, crianças e jovens de 06 à 20 anos – idades nas quais a maioria dos transtornos psiquiátricos estão estabelecidos – são analisados por meio de questionários preparados para oferecer uma boa descrição dos fenótipos ambiental e comportamental e, no nível neurocientífico, técnicas de imagem cerebral e de genética e biologia molecular para investigar fatores de riscos e diferentes níveis de fenótipos.

O estudo teve início em 2009, com 2511 jovens avaliados, com idade entre 6 e 14 anos, das cidades de Porto Alegre e São Paulo. Três anos mais tarde, em 2014, foram reavaliados com idade entre 9 e 17 anos e em 2018 a 19, na terceira fase, com idade entre 12 e 20 anos. Devido à pandemia do COVID 19, em 2020 e 2021, os jovens estão sendo acompanhados e avaliados através de questionários, realizados via telefone e internet. Em 2022, na quarta fase do Instituto Nacional de Psiquiatria para o Desenvolvimento da Infância e Adolescência (INPD), quando os jovens tiverem entre 15 e 23 anos, é que serão submetidos à nova avaliação, completando doze anos de seguimento.

Como nas fases anteriores, esta avaliação será dividida em três etapas: entrevistas com os pais ou acompanhantes dos jovens; entrevistas e testagens cognitivas com os adolescentes e os jovens adultos; coleta de marcadores biológicos. Dessa forma, estima-se conseguir modelos preditivos que incorporem fatores de risco precoces como preditores dos desfechos tardios.

Com base nos resultados anteriores – que tornam a Coorte de Alto risco um dos projetos mais ambiciosos já realizados na psiquiatria brasileira, foram coletados os seguintes desfechos: o fenoma comportamental (e.g., transtornos psiquiátricos, temperamento, testes neurocognitivos, bem-estar) e o fenoma cerebral – ou o conectoma (estrutura e funcionamento do cérebro). Também foi possível investigar os fatores de risco e sua complexa interação: genoma e epigenoma (i.e., variações de genes, padrões de metilação e proteínas) e o ambientoma (e.g., privação, conflito familiar, bullying escolar, uso de serviço).

 

2.Programa de Visitas Domiciliares a Jovens Gestantes

O Primeiros Laços é um ensaio clínico controlado randomizado, que avalia o efeito de um programa de visitação domiciliar para gestantes adolescentes, entre 14 e 20 anos,  em alta vulnerabilidade e seus filhos, com início no primeiro trimestre de gestação em comparação aos cuidados usuais durante os primeiros dois anos de vida, com objetivo de desenvolver habilidades parentais sensíveis e responsivas, apoiar o desenvolvimento de um plano de vida para a mãe e sua família, melhorar aspectos relacionados à saúde da gestante, da mãe e posteriormente do seu filho, promovendo assim o desenvolvimento infantil.

O programa Primeiros Laços foi implementado por enfermeiras treinadas e tem como objetivos atuar em cinco domínios: (1) Saúde e assistência social: psicoeducação em relação à saúde materno-infantil, como nutrição, higiene, patologias comuns na infância, cuidados domésticos, vacinação, prevenção de acidentes e desenvolvimento neuropsicomotor infantil. Além disso, a enfermeira procura encorajar o participante a procurar serviços de saúde e sociais quando estes são necessários; (2) Saúde ambiental: a enfermeira presta apoio e ajuda a identificar recursos para garantir condições de vida adequadas, moradia segura, creche e escola, e acesso a serviços de saúde; (3) Curso de vida: planejamento do curso de vida para ajudar as participantes a alcançar metas, como terminar o ensino médio, encontrar um emprego de meio período, iniciar o ensino superior e adiar o nascimento de um segundo filho. As necessidades e objetivos dos participantes são sempre discutidos individualmente, respeitando seus objetivos e desejos pessoais; (4) Habilidades parentais: psicoeducação em habilidades parentais adequadas e comportamentos adequados para cada estágio de desenvolvimento da criança; (5) Família e rede social de apoio: as enfermeiras estimulam as gestantes e mães a reconhecerem e utilizarem os recursos familiares e sociais (creches, serviços sociais, lazer, emprego) no processo de desenvolvimento do cuidado de seus bebês. Além das visitas domiciliares também são organizados encontros grupais incluindo os pais e/ou avós visando o aprofundamento de alguns temas e a maior aproximação e entrosamento das participantes.

O programa Primeiros Laços se mostra eficaz em promover o desenvolvimento infantil de uma população de alto risco para agravos cognitivos e emocionais precoces. Populações de alto risco (gestantes adolescentes e pobres), como a incluída neste estudo, apresentam uma série de necessidades e particularidades, que se constituem em importantes barreiras para que programas regulares sociais e de saúde tenham efeito. Apesar de serem um número relativamente restrito, aumentam substancialmente o risco de agravos ao desenvolvimento infantil e por isso respondem à uma parcela substancial de crianças com prejuízos cognitivos e emocionais. O programa Primeiros Laços, focado em populações de alto risco, articulado com os programas já em vigor no Brasil, pode contribuir para a promoção do desenvolvimento infantil, prevenção de problemas emocionais e comportamentais na infância, colocando as próximas gerações de brasileiros em melhores condições de saúde.

A equipe deste projeto conta com importantes pesquisadores nacionais, com expertise em áreas distintas e complementar do conhecimento: Euripedes Constantino Miguel, Guilherme Vanoni Polanczyk, Helena Brentani, Daniel Fatori, (Departamento de Psiquiatria da FMUSP), Alexandre Ferraro (Departamento de Pediatria da FMUSP), Alicia Matijasevitch (Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP), Anna maria chiesa e Lislaine Aparecida Fracolli (Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da USP) e com colaborações internacionais, Charles Nelson (Boston Children’s Hospital, Faculdade de Medicina de Harvard e Escola de Saúde Pública de Harvard) e James Leckman (Yale Child Study Center e Departamento de Psiquiatria da FMUSP). O grupo de pesquisa que compõe o Projeto Primeiros Laços vem direcionando esforços paraa caracterização de trajetórias patológicas ao longo do desenvolvimento e avaliação de intervenções por meio de estudos experimentais controlados implementados na comunidade e em ambientes clínicos, realizados no contexto dos projetos de pesquisa.