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Criança que passa fome pode ter problemas de saúde que perduram a vida toda

07/12/2021

Tema urgente nos últimos tempos, após mais de 18 meses de pandemia, a fome merece atenção, principalmente, em relação às crianças que nasceram durante esse período e vivem em famílias com insegurança alimentar grave —que consiste na ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de comida entre todos os moradores.

Os longos períodos de subnutrição, ou seja, ingestão nutricional abaixo do recomendado para o desenvolvimento do organismo, representam consequências irreversíveis, com comprometimento da saúde física e mental.

“A fome nos primeiros anos da criança pode ter um efeito cascata na vida adulta”, afirma Ivanira Amaral Dias, professora da Faculdade de Nutrição do Instituto de Ciências da Saúde da UFPA (Universidade Federal do Pará).

Somado a privações alimentares da mãe na gestação e que impactam o desenvolvimento infantil em fases posteriores, corre-se o risco de haver adultos com distúrbios físicos e mentais, nas próximas décadas.

“Indivíduos em fase de crescimento que foram vítimas da ausência de alimentos ao longo da pandemia —que passaram fome e que ainda poderão, dependendo da intensidade e da duração— provavelmente terão sequelas com limitação da capacidade funcional a longo prazo, ou seja, suas aptidões para conseguir emprego e, portanto, de gerar renda para seu sustento”, assegura Katia Brandt, presidente da Sopepe (Sociedade de Pediatria do Pernambuco) e professora do Departamento Materno Infantil da UFPE (Universidade Federal do Pernambuco).

O que é subnutrição?

A baixa ingestão de macronutrientes, representados por proteínas, carboidratos e gorduras, e os micronutrientes —vitaminas e minerais—, por longos intervalos de tempo, caracteriza a subnutrição, que favorece o estabelecimento de enfermidades crônicas como diabetes mellitus, além de aumentar o risco de disfunções cardiovasculares, infecções intestinais, osteoporose, hipotireoidismo, obesidade e comprometimento imunológico.

Há risco de mortalidade, retardo do crescimento físico, baixo peso e estatura, associados a infecções frequentes e resistência ao tratamento. “As consequências atingem igualmente o desenvolvimento emocional, o aprendizado e o desempenho de atividades comuns para a idade”, explica Everardo Magalhães Carneiro, professor do Instituto de Biologia e pesquisador do OCRC (Centro de Obesidade e Comorbidades) na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Para os médicos e especialistas, a fase mais crítica é quando a oferta reduzida de nutrientes ocorre nos dois primeiros anos, período no qual se dá o mais rápido aumento do cérebro. A falta de nutrientes impacta no seu desenvolvimento e, consequentemente, na capacidade cognitiva e funcional, inclusive a longo prazo.

“Os primeiros 1.000 dias —que correspondem as 40 semanas de gestação (270 dias) somadas aos dois primeiros anos de vida (730 dias)— são fundamentais, pois é quando o crescimento é acelerado, tanto físico quanto do sistema nervoso, e daí a importância da exposição a nutrientes de qualidade e estímulos adequados. É possível reduzir a mortalidade e o índice de doenças crônicas não transmissíveis na idade adulta, como a síndrome metabólica (dislipidemia, diabetes e hipertensão arterial) e alguns tipos de cânceres”, fala Cristiane Boé, coordenadora do serviço de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital Infantil Sabará (SP).

Sinais da insuficiência de nutrientes

A desnutrição compromete o funcionamento praticamente todos os órgãos do corpo, incluindo intestino, coração e rim e a deficiência de micronutrientes acarreta em diversas doenças.

A anemia ferropriva (por deficiência de ferro) é a carência nutricional mais comum. “A redução dos estoques do ferro no organismo afeta processos metabólicos e a palidez cutânea é a manifestação mais tardia e indica comprometimento importante”, lista Boé.

As hipovitaminoses são responsáveis por diversas enfermidades. A deficiência de vitamina A provoca alterações de tamanho, pele seca, cegueira noturna, xerose conjuntival (perda de brilho e da transparência no olho), úlceras de córnea, manchas de Bitot —placas acinzentadas na conjuntiva ocular; a vitamina B1 em defasagem acarreta polineuropatia, alterações de memória, confusão mental; níveis insuficientes de vitamina B12 resultam em anemia megaloblástica, irritabilidade, glossite, diarreia, parestesias, transtornos psiquiátricos e neuropatia desmielinizante, a baixa ingestão de vitamina C traz consequências como hematomas na superfície dos ossos, fraturas, sangramentos de mucosas e a de vitamina D, raquitismo carencial, fraturas patológicas, atraso da erupção e alteração do esmalte dentário, baixa estatura, fraqueza muscular e hipotonia generalizada.

A deficiência de zinco leva às seguintes disfunções: dermatites, entre elas a bolhosa pustular, a acro-orificial e a acrodermatite enteropática, cujos sintomas além da inflamação da pele são diarreia e alopecia (queda de cabelo); anorexia, distúrbios emocionais, infecções recorrentes e intestinais.

Diagnóstico precoce e tratamento

É possível identificar os sinais ainda na infância. O ganho de peso é lento; a criança é menor do que outras da mesma idade, incluindo altura e tamanho da cabeça. Nota-se pouco interesse ao redor, sonolência extrema, choro frequente e agitação, além disso, o bebê não rola, senta ou anda, comparado aos da mesma faixa etária. Observa-se queda de cabelo, unhas fracas, pele seca e alterações hormonais e inchaços.

Carneiro esclarece que a subnutrição leva a adoecimentos frequentes com demora para o restabelecimento. Há morosidade para a recuperação de gripes e resfriados e diarreias devido ao enfraquecimento da resposta imunológica. “Sem tratamento, essas crises se perpetuam na fase adulta; o organismo não é capaz de responder a essas infecções.”

Os problemas cognitivos são também observados na infância. As crianças são menos ativas, alheias ao seu redor e com habilidades sociais prejudicadas.

Quando existe um acompanhamento médico e um recordatório alimentar —documento que detalha o consumo diário alimentar— é possível identificar as patologias de forma precoce, tornando o tratamento e a reversão mais fáceis.

“Existem quadros carenciais sob o que se chama de fome oculta, que consiste na deficiência de micronutrientes, sem sintomas severos, tornando a identificação mais difícil, passando despercebida que leva ao aparecimento de doenças mais graves posteriormente”, alerta Boé.

Dá para remediar?

A identificação dos indivíduos mais vulneráveis é fundamental para estabelecer programas alimentares a fim de reduzir o impacto dos danos já provocados pela insegurança alimentar grave a essas gerações, sendo necessário focar na qualidade nutricional da alimentação e não somente em calorias da dieta.

“É preciso que haja a oferta de alimentos que respeitem as necessidades de vitaminas, minerais, calorias, proteínas, lipídeos e carboidratos, além do respeito à diversidade cultural e social. Casos mais graves pedem suplementação alimentar de micronutrientes”, pontua Carneiro.

Leia na íntegra: uol.com.br/vivabem